Está mais difícil de escrever do que deveria. Também está mais fácil de escrever do que deveria. Estou me contradizendo.
Está mais difícil de escrever do que deveria. Também está mais fácil de escrever do que deveria. Estou me contradizendo.
Espero que não seja muito difícil de ler isso aqui. Foi o melhor que pude fazer tão em cima da hora — espero que chegue até você antes que a ilha se acabe ao seu redor.
Você já sentiu uma fome que se aguçava com qualquer tentativa de saciá-la, tão afiada e intensa que poderia rachá-la ao meio, fazer surgir algo novo?
Às vezes eu penso que é isso que tenho, em vez de amigos.
A fome, Red — saciar uma fome ou alimentá-la, sentir a fome como uma fornalha, traçar suas pontas como dentes —, isso é uma coisa que você, individualmente, sente?
A sua menção de comida — tão doce, tão saborosa — não teve qualquer menção de fome.
Resumindo: já se passou muito tempo desde minha última carta.
Minha querida, profunda Blue… No fim como no começo, e por todos os meios, eu te amo.
Red
O que eu vou fazer, céu? Lago, o que eu faço? Pássaro azul, íris, ultramarina, o que pode vir agora que isso está feito? Mas nunca vai acabar — essa é a resposta. Sempre há nós.
queria que nós pudéssemos ter deixado para trás todos esses shows de horrores e encontrado outro juntas, só para nós. Isso é tudo o que eu quero agora. Um lugarzinho, um cachorro, grama verde. Tocar a sua mão. Correr meus dedos pelos seus cabelos.
Se você leu até aqui, fizeram de mim uma arma, e me enfiaram no seu coração.
Se você leu até aqui, eu não sou digna de você. Eu sou uma covarde. Eu deixei que me usassem.
Se tem uma coisa que me entristece nisso tudo é o seu desperdício — doce e segura em lugares frios e afiados que não vão amar perfurar sua pele.
(Eu nunca ia querer que você me deixasse vencer. Que ideia!)
e é um luxo, de certa forma, fazer isso. Escrever em plena vista. Escrever, também, ao ritmo do que sinto acontecendo. É fascinante, à sua própria maneira. É tudo o que eu queria de uma inimiga.
É claro que escrevo para você. É claro que eu comi suas palavras.
Eu geralmente gosto delas, das minhas piadas. Elas parecem acrescentar, não prejudicar, os assuntos tratados. Menos agora.
É frustrante quando os espinhos começam a rasgar suas bochechas e garganta. Ela quer sentir tudo.
Ela as come lentamente, olhos fechados, esmagando algumas contra o céu da boca, outras entre seus dentes, rolando sua doçura pela língua.
Verdade seja dita, Blue se sente insultada. Que coisa mais óbvia; que despropósito.
seu crescimento debochado uma promessa nunca cumprida, uma partitura nunca tocada.
Blue a cultivou, devotamente, desde a semente — estranhamente marcada, amorfa, de um azul reluzente em um pacote de papel marrom-pálido.
Se Blue comer, morrerá — mas se não comer, então o time de Red saberá que ela foi avisada, vai suspeitar de Red, e vão destruí-la no lugar de Blue.
Mas por algum motivo ela negligencia um modelo de carta para quando sua inimiga salva…
Mesmo a perspicaz e quase profética sra. Leavitt não tem um modelo para isso. Aniversários, sim (é o meu, por falar nisso, se considerarmos que tenho um); funerais, tudo bem; na ocasião de um matrimônio, naturalmente.
Ela encara a carta. Então ri, vazia e nua, e soluça, e aperta a carta contra o coração e não a abre por muito tempo.
Uma carta para orgulhar a sra. Leavitt: um bonito papel azul salpicado de lavanda e pétalas de cardo, em um envelope azul com uma gota de cera vermelha fechando-o. Não há lacre, nem selo — apenas vermelho, vermelho como o sangue pingando de seu ombro.
PPS. Desculpe a imprecisão da minha saudação — eu acho que é de saudação que a sra. Leavitt chama? Esqueci o nome que os Londrinos do Filamento 8 C19 deram àquele tom de azul sobre a porcelana importada. Eu teria usado, se lembrasse.
Queridíssima 0000FF,