É o pelo dos leões.
É o pelo dos leões.
(Arremesso-me em direção ao teu ventre, sem recuo possível: cego animal fascinado, converto as minhas garras em dedos de lã. Conhecer-te na carne, porém, cada vez mais parece desdobrar-se em consequências que intensificam esta aventura.)
— A senhora viu claro. — tem bom olho. Mas podia ver tudo? Eu vejo mais. Em Cecília, conciliam-se contrários. Solidão e multidão. Delicadeza e força. Doar e receber. Direito e avesso. Enfim: íntegra. Considero-me, ante ela, um ser desfalcado.
Quebrados e moídos.
Como deslizam em teu sexo meus dedos!
A sentença de que, insciente, sou o portador e em certo sentido o executante, tende a ser conjurada.
Meus passos ressoam, ressoam.
Ocorre-me, às vezes, que o mundo não seja um elemento inerte? Que seja uma pressão, Abel, talvez um personagem?
O peixe emerge das profundezas, salta sobre a linha do mar e volta às águas.
. Eis-me reduzindo as nossas relações a um encontro fortuito, isolado, sem conexões com outras circunstâncias e eventos, eis-me dizendo o que sou ou estou certo de ser, eu, inebriado e ferido, dividido entre um obstinado projeto criador e a cólera ante um mundo armado de garras.
Leve para longe de mim esses entes informes o vento que os traz!
Um rosto novo, surpreso, ávido e feliz, sem o mínimo traço de maldade, sim, sem ódio, sim, tocado de audácia, de decisão, de força, um rosto de quem não tem medo de leões.
Os olhares afáveis trocados entre marido e mulher fazem supor que cada um procura consolar o outro do infortúnio. Mas o que existe mesmo no fundo desse olhar é ódio, um ódio não expresso e que assume aspectos inocentes.
Iremos de um extremo a outro, sem pouso nem encontro verdadeiro.
Não seria o núcleo do que se anuncia com as suas árvores crescendo no sentido das raízes, seus peixes cantores, seus touros submersos?
O vácuo e o silêncio atingem cada osso.
Ela, vestido leve e claro, corre à minha frente, feliz, a mão esquerda estendida para mim.
Não é sempre esta a nossa conclusão ante fenômenos que nos escapam?
Deitado, eu, com uma polaca; abraço-a como se abraçasse um ser feito de arame e de cabelos de mortos.
Um zumbido constante, não exatamente igual ao canto das cigarras, nem ao trilar dos grilos, nem ainda ao ruído de uma serra.
Que posso fazer, eu, contra essa recordação? Aperto-a contra mim.
Com as pontas dos dedos (tão frios!), Cecília afaga meu rosto e pede que retarde ainda um pouco a volta.
Com a mão esquerda, sopeso a forma do peito, acompanho a cintura em direção ao flanco, sinto na palma a lã, o púbis, anelado. Entre os pelos: seu pênis vibrante.
Ela me responde "Morreremos, Abel!", o que significa Aqui estamos, havemos de morrer mas ainda estamos vivos e afinal a vida, longa ou breve, dura apenas um dia, ninguém vive dois dias, ninguém, importa que haja nesse dia uma hora, um minuto, um instante que ilumine o resto.
Ponho-me de joelhos, olhando para os lados. Ela se ergue. Sua cabeça contra o halo — distante, pacífico — das luzes de Olinda.
aí são e por isto o corpo que conheço que em mais de um nível e plano conheço e que luxuriante copioso aprazível imita o aprazível copioso luxuriante mundo do jardim com ele quase se confunde (curva roliça do ombro com a marca dos meus dentes)
A decisão de saltar, mergulhar na água sombria e desprender a rede, empurra-me.
Canta um sabiá, à distância ou ocluso.
— Avesso à indiferença — da qual desconfio — e fazendo da minha incompatibilidade com os tempos que passam uma espécie de justificativa para o exercício continuado (e, posso dizer, desesperado) deste ato suspeito e pouco oficial de escrever.
Chama-me do fundo do teu ventre, é um apelo claro e tão imperioso como o que nos vem, às vezes, em sonhos.