reluz de concreto, malandro dentro e malandro fora, padre da Baixada e mãe de santo de Irajá, um fuzuê universal operando dentro de uma estrita ordem de normalidade.
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reluz de concreto, malandro dentro e malandro fora, padre da Baixada e mãe de santo de Irajá, um fuzuê universal operando dentro de uma estrita ordem de normalidade.
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e saindo da lotérica com na mão o cafezio, mercadoria espalhada na toalha colorida no chão, dinheiro amassado trocando de mão, cordão de jogo do bicho, cartão pendurado de tatuagem, cheiro de fritura e de fruta vencida e de tinta de parede e de asfalto derretendo,
Ali na rua tudo que dava era prédio e vidraça, galeria com tapume, placa de publicidade, ambulante e camelô, tráfego, fio de eletricidade, cadeira de plástico na calçada, gente regateando, fumando, provando óculos de sol, entrando no boteco com o bilhete da loteria
Nunca diga “todos". Exceto quando.
A manifestação mais espontânea desse sentimento está encarnada no guiotim, a figura voluntária que o estado da Guanabara paga retroativamente por ter dado ao turista informações erradas de qualquer gênero a respeito de como funcionam as coisas no Rio de Janeiro»
É nisso que corporação mais típica do Rio do que a Escola de Samba não existe, e rito máximo mais do que o Carnaval: o cordão agremia de um lado todas as ocupações e esvazia do outro a seriedade que qualseja modo de vida poderia querer requerer para si.
«Se as profissões do Rio têm uma quadra comum, está em que por trás de todas espreita a mesma arte: o Teatro, o mesmo ofício: a Comédia, e a mesma disciplina: a Gozação.
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Odorico Ydriúna descreve uma tarde de chumbo com rajadas de chuva que atravessavam a paisagem pesadas e intransponíveis fossem pernas que passeavam de gigantes, arremessando na distância o cristão que nelas por engano relasse.
Mais negócio teria sido passar o século 20 escrevendo livros utópicos em vez de distópicos
«...em cujo apêndice II espreita a lista com o nome das 623 primeiras gotas d’água da criação, relação a partir da qual – do mesmo modo que quem conhece os números de 0 a 9 pode numerar e identificar qualquer número sobre a terra – o leitor pode nomear gota d’água qualseja que lhe caia na mão.»
«Falamos do dia em que Mainza Suassira, maio de 1567, apresentou-se no portão de Coronel Gesuardo em Dindié puxando um cortejo saltimbanco de mucugês, caçanjes, cariris, tabajaras e sicilianos, vestindo esses nada além de imbira, cicatrizes, membros faltantes»
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«...em conformidade com a reza de São Coro de Minância de que o primeiro mandamento do siso e aquele da santidade são um só, e é esse entender que a água é mais coisa valiosa do que o ouro».
«...recoberto em sua majestade por uma folha lúcida e rumorejante de água pura corrente sortida por um ramado oculto de bicas e valvolejaturas que serpeava em entremeios nas pedras e na frisatura das avencas...»
Em todas as profissões (p.ex. médicos, cientistas, juristas, jornalistas) há gente capaz de validar os maiores absurdos, e mesmo de acreditar naquilo que sabem falso. O dinheiro compra tudo, até opinião sincera. A falsa é com certeza mais barata.
«porque o cuscuz, a rola, o rapé, o sururu, a ostra e o feijão verde já conhecia, Carnivaldo não se deixou enternecer até pousar os olhos no altar grande da Igreja de Santa Boturatiz, esculpido por Relarmina de Caicó com indiarias, varões, iraras e benfazejos...»
Kopenawa descreve, efetivamente, as fábricas que visitou na Europa como lugares onde o fogo queima as coisas sem parar. Ali se cozinha o que homem não come. A culinária canibal dos Brancos: petróleo, ouro; o incomestível.
«Para abrandar o tédio de uma aula de Economia ou de Cálculo, o voluntário rasga uma folha de caderno e escreve de cabeça sua o mote: uma frase ou parágrafo que darão a início à história. Ele sem dizer palavra passa a folha ao colega da carteira de trás...
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«Mas no outro mundo o que tinha sido escrito para ajudar acabava virando obstáculo, já que (e a vossia isso não preciso dizer) as palavras o demônio mais incompetente pode revirar o seu sentido»
«Não terá em momento algum a memória daquilo que está buscando, e a única certeza será que não há garantias de que no final vai conseguir»
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Hoje é dia de lembrar deles
Lembro deles continuamente
Free speech - free as in "livre de"
Eu eu a ele: «Já eu sou um que quando
O amor me inspira, tomo nota, e do jeito
que comanda interiormente vou significando»
– em que o premurido é atingido e ultrapassado no último segundo com aquele “vou significando”.
O exemplo clássico de cura semântica segundo o Velho Modo está no Canto XXIV do Purgatório:
E io a lui: «I’ mi son un che, quando
Amor mi spira, noto, e a quel modo
ch’e’ ditta dentro vo significando»
Através das palavras o nerecoporeta (ou bendizente, ou dissebença) alinhava sentidos, sons e alusões de modo a conduzir o seu ouvinte além do premurido, que é o inaudível estrondo sônico/sonic boom além do qual existe e subsiste, por um período de tempo, a realidade alterada pela cura semântica.
As malasartes todas do semiárido (o repente, o cordel, o bolodório, o paleio) pressupõem a cura semântica. Cada uma fomenta a nerecoporese a seu modo, mas requerem cada uma a fioteza, a gaiatice, a ligeireza – a inteligência verbal e gestual a serviço da maravilha, da ironia e da imaginação.
Nerecoporeta é o encenador da nerecoporese, a cura semântica prescrita pelos guatós, artifício através da qual a realidade (ou a percepção da realidade, que é naturalmente a mesma coisa) é alterada ou sanada pelo uso exuberante, improviso e maneirista da linguagem.
Foi dito muitas vezes e de muitas maneiras, mas outra nenhuma como pelo engenhoso Arievaldo Viana: “nerecoporeta é o cabra que fala tão rococó que acaba dobrando a realidade”.
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Se a razão é natural, o senso de justiça (o “conhecimento do bem e do mal” do Gênesis) é artístico e poético, é espiritual: é divino.
Daqui o axioma mais central do pensamento de Cangüira: a razão não tem nada a ensinar ao homem a respeito da justiça.
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Amar é não só participar da divindade e completar a obra da criação, é também reverter a Queda: «Deus, querendo restaurar todas as coisas, deu ao homem o dom de amar tudo que existe, todos que existem, tudo que acontece».
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